OS RISCOS DA INFORMALIDADE: DEPOIMENTO DE UM "EMPRESÁRIO"

 
 

Eu era uma pessoa conceituada na comunidade. Pai de família exemplar. Queria ser dono de uma empresa de sucesso e deixar um patrimônio para os meus filhos. Após anos como empregado, concretizei o sonho de finalmente ter o meu próprio negócio. Achei que era fácil a vida de empresário. Era competente tecnicamente e "levava jeito" para administrar os negócios. Decidi abrir uma empresa informal, pois desta forma comprava e vendia e não prestava contas para o Governo. Acreditava que era perda de tempo e dinheiro pagar imposto, pois entendia que os políticos não sabiam administrar o dinheiro público. Tinha certeza absoluta que a minha empresa iria prosperar, apesar da informalidade.

Cansei de ouvir palpites de amigos, sobre a utilidade de um contador, mas dizia para mim mesmo: "Para que ter contador, eles só atrapalham, ganham dinheiro e não fazem nada!".
Um amigo, gerente do Banco do qual tinha minha conta pessoal, sugeriu que eu fizesse um Plano de Negócio: "Para que serve esta burocracia toda, não preciso botar no papel o que tenho na cabeça" - respondia-lhe na ponta da língua.

Tinha orgulho dos meus controles, que mantinha na minha superorganizada agenda. Todas as contas a receber e a pagar estavam naquela "bendita" agenda. Eu até que era bem sucedido, pois tinha conseguido com poucos anos de empresa, comprar um carro novo e casa na praia. As vendas subiam e desciam mês a mês, mas nos meus cálculos, estava progredindo. Meu raciocínio era simples: "Se comecei com nada e tenho isso tudo, então estou no lucro".

Eu sabia que estava correndo riscos. Por exemplo: vários amigos me alertavam que diariamente havia fiscalização nas estradas e que um dia o caminhão da minha empresa poderia ser pego. Eu ignorava os alertas: "Meu Santo é forte... e caso seja fiscalizado, dou um jeito depois".

Já tinha 5 empregados trabalhando comigo, todos sem carteira assinada, mas eu pagava as férias e o 13o salário direitinho. Nada poderia dar errado, estava tudo literalmente sob o meu controle.

Até que um dia, minha "sorte" mudou...

As vendas cresciam rapidamente, e logo apareceu uma grande oportunidade de vender para um cliente importante. O preço era ótimo, mas o cliente exigia a tal nota fiscal. Como a empresa não existia oficialmente, a venda foi perdida. Outras oportunidades como esta apareceram e também foram perdidas.

Certa vez, um cliente recebeu a minha mercadoria e não pagou. Não tive condições de receber, pois o cliente alegou que nunca tinha recebido mercadoria alguma da minha empresa. Não foi possível cobrar na justiça, pois eu não tinha documento algum que comprovasse a venda e a dívida.

Um dia a agenda onde eu mantinha todas as contas a pagar e a receber sumiu. Fiquei louco! Toda a informação da empresa ficou somente na minha lembrança. Acho que até hoje tem cliente que não pagou, mas todos os meus fornecedores lembraram das contas que tinham que ser pagas pela minha empresa. Imagino que tive um grande prejuízo, porém incalculável.

Mas o pior foi quando o caminhão da empresa foi parado numa blitz da fiscalização estadual. Toda mercadoria foi apreendida sem nota fiscal. Até aí, quase tudo bem. Piorou quando o fiscal me achou, fiscalizou e determinou uma multa enorme para minha empresa. Como resultado, eu deveria pagar para o fisco quase 3 vezes o valor da venda mensal.

Tive que contratar um advogado para me defender, sabendo que na realidade não tinha defesa e, cedo ou tarde, meus bens, conquistados com tanto suor, poderiam ser penhorados pela justiça para garantir o pagamento dos impostos devidos.

Depois deste dia, foi como uma "bola de neve". Os pagamentos dos fornecedores e dos funcionários começaram a atrasar. Eu vivia uma pilha de nervos e não conseguia mais raciocinar direito. Desesperado, procurei pedir concordata ou falência, mas não podia pois minha empresa não existia. Diante da situação que piorava a cada dia, alguns empregados saíram sem receber seus direitos trabalhistas. Um deles resolveu denunciar minha empresa no sindicato dos trabalhadores, que imediatamente acionou a Justiça e o Ministério do Trabalho. Logo apareceram os fiscais da Previdência Social e do próprio Ministério do Trabalho, me obrigando a registrar todos os funcionários com data retroativa ao inicio do funcionamento da empresa e saldar todas as dívidas trabalhistas e previdenciárias num curto espaço de tempo. Como não tinha dinheiro para liquidar as contas, a justiça penhorou todos meus bens, meu carro e a minha casa na praia. Mesmo assim, não consegui pagar nem 30% da dívida, fui obrigado a fechar a empresa. Hoje estou foragido, minha prisão foi decretada, perdi o respeito da minha família e dos meus amigos, mas acima de tudo perdi tempo de vida.

Infelizmente não busquei orientação e tomei minha primeira e mais importante decisão de forma errada.